POR MARTIN HARRIS
Ao longo da longa história do poker, as representações do jogo na cultura popular obviamente influenciaram sua popularidade e ajudaram a formar as opiniões sobre o poker.
O cinema entrou totalmente na era do som durante a década de 1930, e logo surgiu o “sistema de estúdio” (studio system), quando a indústria cinematográfica de Hollywood foi dominada por um pequeno número de produtoras. Na verdade, essas empresas controlavam a produção e distribuição de cerca de 95% de todos os filmes durante os anos 30 e 40.
Alguns dos principais estúdios eram identificados com gêneros específicos. Por exemplo, a Warner Bros. era associada a filmes de gângster e a Universal, aos de terror. No entanto, todos os estúdios ficaram cada vez mais interessados em faroestes e, em meados do século, os filmes que retratavam o Velho Oeste estavam entre os longa-metragem que mais eram feitos e assistidos.
Não é nenhuma surpresa encontrar o poker frequentemente destacado em muitos desses filmes de faroeste antigos. Afinal, fazia total sentido que histórias com esse cenário apresentassem o jogo de cartas característico da época. Algumas das melhores cenas de filmes de poker desse tempo é de westerns como Atire a Primeira Pedra, Sunset Trail, Adorável Inimiga, A Paixão dos Fortes, Winchester ’73, Bando de Renegados e O Aventureiro do Mississippi.
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Mas, de que forma os espectadores foram afetados ao ver estrelas como John Wayne, Henry Fonda, Jimmy Stewart e outros jogando poker em salões do Velho Oeste na telona? Isso certamente colocou o jogo em primeiro durante um período em que sua popularidade continuava crescendo de forma constante. Esses filmes também romantizaram o jogo, de certa forma, especialmente quando os cowboys durões, heróis do filme, eram mostrados dando o merecido troco nos “bandidos” em uma mesa de poker.
Claro, esses filmes de faroeste com cenas de poker também ajudaram a promover uma associação entre poker e violência. Isso, pois os jogos frequentemente acabavam em tiroteios nesses filmes, especialmente quando ocorriam trapaças. Para alguns, isso romantizou ainda mais o poker como uma atividade “fora da lei”, reservada para caras durões. Para outros, tal associação proporcionou outro motivo para se opor ao jogo como algo moralmente censurável.
O fato de o poker também aparecer com frequência em vários filmes policiais teve uma influência igualmente paradoxal no jogo. Por um lado, as cenas de poker em filmes como As Mulheres Enganam Sempre, Cidade das Sombras, O Homem do Braço de Ouro e Golpe de Mestre promoveram o interesse pelo jogo, fazendo-o parecer tão empolgante quanto outros elementos intrigantes das tramas desses filmes. Mas, novamente, esses filmes mostram uma variedade particular de jogos de poker, que, como nos faroestes, frequentemente envolvia trapaça – o que para alguns fez o jogo parecer perigoso e cheio de ameaças em potencial.
Dito isso, ao longo dos anos, as comédias contendo cenas de poker talvez tenham ajudado a destacar o lado mais leve do jogo, especialmente aquelas focadas em partidas disputadas em ambientes domésticos entre amigos e familiares. E embora algumas dessas partidas possam ser ridículas, como as jogadas por W.C. Fields em Tillie and Gus, Mississippi e Minha Dengosa, elas ajudam a fazer o poker parecer mais convidativo.
Em 1961, um filme chamado Desafio à Corrupção apresentou um protagonista que jogava sinuca. Pouco depois, Richard Jessup escreveu um curto romance no estilo pulp intitulado À mesa com o diabo (The Cincinnati Kid), um livro cuja crítica disse ter “Feito pelo stud poker o que Desafio à Corrupção fez pela sinuca”. A MGM viu uma oportunidade de adaptar a história em um filme que pudesse emular o sucesso de Desafio à Corrupção e assim, em 1965, a versão cinematográfica foi lançada.
Visto em retrospecto, a maioria concorda que À mesa com o diabo é um dos melhores filmes de poker de todos os tempos. Na verdade, ele meio que estabeleceu uma espécie de modelo para o que seria considerado um “filme de poker”, no qual o jogo está em primeiro plano e apresenta um jogador habilidoso em busca de sucesso. Em alguns aspectos, a fórmula se assemelha a um filme sobre esportes e, de fato, como muitos filmes dentro dessa temática, ele termina com uma grande disputa.
À mesa com o diabo não foi um grande sucesso de bilheteria e, inclusive, dividiu a crítica na época. Mas o filme ajudou a fazer com que o poker parecesse intrigante o suficiente para muitos espectadores quererem entrar no jogo. Alguns anos depois, em 1974, foi lançado outro filme que também focava muito no poker chamado Jogando com a Sorte (California Split). Um dos melhores filmes de apostas de todos os tempos, o longa possui ótimas cenas de poker, incluindo uma em que um personagem assistindo a um jogo stud de high-stakes caminha ao redor da mesa descrevendo suas impressões sobre cada jogador.
Quando ele alcança um dos jogadores de aparência mais jovem, ele diz “o garoto … viu À mesa com o diabo muitas vezes. Ele está tentando vencer este jogo desde antes de nascer.” O comentário é engraçado, mas também sugere como À mesa com o diabo incentivou jogadores a se aventurar no poker, incluindo, neste caso, influenciar um jogador mais jovem a elevar seu jogo a um nível alto o suficiente para que ele pudesse competir com grandes high rollers (ou assim acreditava).
Jogando com a Sorte também inclui uma participação especial de Amarillo Slim Preston, que de fato participa desse mesmo jogo de stud. Preston era sem dúvida o jogador de poker mais famoso da América na época. Ele havia há pouco ganhado um dos primeiros eventos principais da World Series of Poker e também aparecia com frequência na televisão dando entrevistas ou como convidado em programas de jogos. Sua aparição no filme é outro exemplo dos esforços de Preston como uma espécie de “embaixador” do poker.
Tanto À mesa com o diabo quanto Jogando com a Sorte podem ser considerados “filmes de poker” com razão. No entanto, demorou algum tempo até que outro filme de poker aparecesse, com tanto impacto quanto aqueles dois tiveram para o crescimento do jogo. Em 1998, o filme Cartas na Mesa (Rounders) estreou, uma história centrada em partidas clandestinas em Nova York e os esforços de um jogador em busca de melhorar seu jogo o suficiente para ser bem sucedido nelas.
O filme de poker Cartas na Mesa foi, obviamente, um dos fatores que colaboraram para o “boom do poker” dos anos 2000. Para muitos espectadores, esse foi o filme que os encorajou a aprender a jogar Texas hold’em. A ascensão do poker online e televisionado também foi um fator importante, incentivando cada vez mais pessoas a entrar no jogo.
Isso, por sua vez, inspirou estúdios e cineastas a fazerem mais filmes sobre poker. De fato, por um curto período de tempo, parecia que não havia fim para o número de longas sobre poker que Hollywood poderia fazer.
Infelizmente, muitos desses filmes fracassaram tanto no quesito crítica, como nas bilheterias. Isso inclui Luckytown Blues, Shade – Nos Bastidores do Jogo, Cartada de Risco, Negócios e Trapaças e o filme de poker de Robert Duvall, Bem-vindo ao Jogo. Até mesmo os escritores de Cartas na Mesa voltaram vários anos depois com o filme Aposta Máxima, um thriller policial envolvendo um estudante universitário que joga poker online. No entanto, a resposta ao longa foi bastante desfavorável e ele não teve nem de longe o impacto de Cartas na Mesa sobre o poker.
Em 2006, um novo filme de James Bond, Casino Royale, apresentou muito poker e foi um grande sucesso de público. Lá, também, o hold’em era o jogo em destaque, e mesmo que alguns jogadores de poker questionassem a natureza não realista de algumas das mãos, o filme certamente ajudou a promover o hold’em durante uma época em que a popularidade do jogo estava no auge.
Mais recentemente, filmes como Parceiros de Jogo e A Grande Jogada apresentaram um poker mais realista para o público. Ambos os longas talvez também retratem uma visão não tão romantizada do jogo, mostrando as dificuldades que os jogadores enfrentam quando perdem ou entram em tilt.
Novos filmes de poker também estão chegando em breve. Ainda este ano, fique de olho em The Card Counter dirigido por Paul Schrader (roteirista de Taxi Driver e corroteirista de Touro Indomável), um filme no qual Joe Stapleton do PokerStars serviu como “Consultor de Poker”. Fique atento também a Poker Face, filme estrelado por Russell Crowe, que provavelmente será lançado no próximo ano.
Ainda não sabemos que impacto esses novos filmes de poker podem ter no jogo. Em qualquer caso, suas representações na cultura popular, sem dúvida, continuarão a influenciar a popularidade do jogo e as opiniões que o público tem sobre o poker.
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